Os riscos na siderurgia não formam uma lista única aplicável a qualquer planta. Eles mudam conforme o processo, a área, os equipamentos, a atividade executada e a rota utilizada para produzir o aço.

De forma simplificada, uma usina integrada pode reunir alto-forno e convertedor, enquanto uma configuração semi-integrada pode utilizar forno elétrico a arco com sucata e outras cargas metálicas. Por isso, nem todas as áreas citadas neste conteúdo estarão presentes em todas as siderúrgicas. A worldsteel descreve diferentes rotas e matérias-primas utilizadas na produção do aço.

Para o Profissional de SST, portanto, a pergunta não deve ser apenas “quais são os riscos de uma siderúrgica?”. É preciso avançar: onde esses riscos aparecem e quais cenários precisam receber maior prioridade?

Isso exige considerar não somente a frequência dos acidentes, mas também o potencial para consequências graves ou fatais, os riscos de processo e as exposições capazes de produzir danos à saúde ao longo do tempo.

Para uma visão mais ampla sobre gestão, normas e proteção no setor, consulte também Segurança em siderúrgicas: riscos, gestão e EPIs.

O risco mais frequente não é necessariamente o mais grave

Um dos erros na leitura dos indicadores de segurança é considerar que aquilo que produz mais acidentes representa automaticamente o cenário mais crítico da operação.

O Safety and Health in the Steel Industry: Data Report 2026, da worldsteel, ajuda a mostrar por que essa interpretação pode ser insuficiente.

Em 2025, as cinco principais causas de lesões com afastamento reportadas para empregados e contratados, em conjunto, foram tarefas e ferramentas manuais, escorregões, tropeços e quedas no mesmo nível, máquinas em movimento, queda de objetos e pontes rolantes.

Quando se compara, porém, o histórico de lesões com afastamento com as fatalidades associadas a cada causa, a relação muda significativamente:

Causa Lesões com afastamento por fatalidade, 2012–2025
Gases e asfixia 1,75
Explosões 2,74
Risco elétrico 5,71
Quedas de altura 6,44
Metal quente 10,64
Escorregões, tropeços e quedas no mesmo nível 749,50

Uma relação menor não representa a probabilidade individual de um acidente resultar em morte. Ela indica que, no conjunto histórico reportado à worldsteel, determinadas causas apresentam proporcionalmente poucas lesões com afastamento para cada fatalidade registrada.

A própria entidade destaca que relações menores estão associadas a tipos de incidentes menos frequentes, mas com maior risco de fatalidade. Para a gestão de SST, a implicação é importante: baixa frequência não demonstra, sozinha, que um cenário de alto potencial esteja controlado.

É nesse contexto que entram os eventos com potencial para lesões graves e fatalidades, os chamados PSIF. Esse conceito é aprofundado no conteúdo sobre segurança em siderúrgicas.

Onde estão os riscos na siderurgia?

O Código de Prática da Organização Internacional do Trabalho para a indústria do ferro e do aço aborda diferentes operações do setor, incluindo coquerias, produção de ferro e aço, fundições, laminação, revestimento, reciclagem e transporte.

Essa organização ajuda a compreender que o perfil de risco muda conforme a área e a atividade. O quadro abaixo utiliza três categorias de leitura: grave ou fatal, processo e exposição à saúde.

Área ou etapa Exemplos de riscos e exposições Natureza predominante
Matérias-primas e sinterização Máquinas, transportadores, equipamentos móveis, poeiras e ruído Grave ou fatal + exposição à saúde
Coqueria Gases, asfixia, incêndio, explosão, calor, benzeno e HPAs Grave ou fatal + processo + exposição à saúde
Alto-forno e casa de corrida Gases, metal e escória quentes, calor, radiação térmica e movimentação Grave ou fatal + processo + exposição à saúde
Aciaria Metal líquido, cargas suspensas, máquinas, calor e reações de processo Grave ou fatal + processo + exposição à saúde
Lingotamento Metal em alta temperatura, transporte, extração, corte, máquinas e calor radiante Grave ou fatal + processo + exposição à saúde
Laminação Máquinas, aprisionamento, materiais aquecidos e ruído Grave ou fatal + exposição à saúde
Transporte e armazenamento Veículos, pontes rolantes, cargas suspensas e queda de objetos Grave ou fatal
Manutenção e paradas Energias perigosas, altura, gases, espaços confinados e atividades não rotineiras Grave ou fatal + processo + exposição à saúde

Matérias-primas e sinterização

Os riscos siderúrgicos começam antes das operações com metal líquido. Movimentação de materiais, transportadores, máquinas, veículos e circulação de pessoas já criam cenários que precisam ser avaliados.

Dependendo da atividade e do processo, também podem existir exposições a poeiras e ruído. Segregação de fluxos, proteção de máquinas, controle de acesso, manutenção e controles específicos das exposições identificadas precisam fazer parte da prevenção.

O EPI pode integrar esse conjunto, mas não substitui medidas destinadas à fonte do perigo e à organização segura do processo.

Coqueria

A coqueria possui um perfil próprio de risco. O código da OIT para a indústria do ferro e do aço relaciona às operações de coque exposições que podem envolver monóxido de carbono, benzeno, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e outros agentes, além de riscos associados a calor, incêndio e explosão.

Quando houver exposição ocupacional ao benzeno nas condições abrangidas pela legislação brasileira, deve ser observado o Anexo 13-A da NR 15, cuja modificação mais recente indicada pelo MTE é a Portaria MTP nº 806/2022.

A identificação precisa dos agentes é essencial porque avaliação, monitoramento e medidas de prevenção dependem da exposição efetivamente presente na atividade.

Alto-forno e casa de corrida

No alto-forno e na casa de corrida, os riscos térmicos coexistem com perigos que não podem ser controlados apenas por vestimentas ou equipamentos de proteção individual.

Podem estar presentes gás de alto-forno, com risco relacionado ao monóxido de carbono, metal e escória em altas temperaturas, superfícies aquecidas, calor radiante, máquinas e movimentação de materiais.

É uma área em que podem coexistir as três dimensões deste mapa: potencial grave ou fatal, riscos de processo e exposição à saúde. A avaliação deve distinguir a exposição ocupacional ao calor dos eventos térmicos capazes de provocar acidentes, diferença detalhada mais adiante.

Para os requisitos relacionados a fornos, veja também NR 14 e fornos: da conformidade à gestão estratégica de EPIs.

Aciaria

Na aciaria, as condições variam conforme a tecnologia utilizada, mas podem envolver metal líquido, panelas, pontes rolantes, máquinas, fontes de energia, calor e eventos capazes de ultrapassar os limites de um posto individual de trabalho.

Um exemplo crítico é o contato indesejado entre metal fundido e água. Segundo o Data Report 2026 da worldsteel, 68 reações entre metal fundido e água foram reportadas em 2025. No mesmo levantamento de eventos significativos de segurança de processo, os membros participantes também reportaram 757 incêndios, 84 explosões e 317 liberações de gases e líquidos.

Esses dados não permitem estimar a probabilidade de ocorrência em uma planta específica. Eles reforçam a importância de integridade de equipamentos, contenção, inspeção, manutenção e controles críticos de processo.

Lingotamento

No lingotamento, o aço passa pelo processo de solidificação enquanto sistemas mecanizados realizam operações de transporte, extração e corte.

Entre os cenários que precisam ser avaliados estão materiais em altas temperaturas, calor radiante, superfícies quentes, respingos conforme a tarefa, equipamentos em movimento, aprisionamento, esmagamento e movimentação de cargas.

Distância em relação à fonte, posição de trabalho, tempo de permanência e forma de execução da tarefa podem modificar significativamente a exposição. Por isso, a avaliação precisa considerar o trabalho real, e não apenas o nome do setor.

Laminação e acabamento

Quando o aço deixa de estar líquido, os riscos relevantes continuam presentes.

Linhas de laminação podem reunir máquinas de grande porte, pontos de aprisionamento, materiais aquecidos, sistemas de transporte e exposição a ruído. Intervenções de ajuste, limpeza, desobstrução e manutenção exigem atenção porque podem aproximar o trabalhador de partes móveis e energias normalmente protegidas durante a operação regular.

Atividades executadas fora da condição normal de funcionamento precisam ser avaliadas como tais, sem pressupor que os controles existentes para a produção regular sejam suficientes.

Transporte interno, pontes rolantes e armazenamento

A logística interna também precisa integrar o mapa de riscos. Veículos que circulam dentro da planta, pontes rolantes, cargas suspensas e áreas de armazenamento criam diferentes cenários de colisão, atropelamento, queda de materiais e esmagamento.

Nos dados históricos de fatalidades da worldsteel, veículos rodoviários dentro das instalações e queda de objetos estão entre as cinco principais causas que a entidade identifica como consistentes ao longo do tempo.

Segregação de rotas, visibilidade, planejamento de movimentação, controle de acesso, inspeção e integridade dos equipamentos são exemplos de medidas que precisam ser tratadas antes de se atribuir ao EPI uma função que ele não pode cumprir.

Manutenção, paradas e terceirizados exigem atenção específica

Atividades não rotineiras merecem tratamento próprio dentro da gestão de riscos.

Em 2025, foram reportadas à worldsteel 74 fatalidades. Dessas, 49 ocorreram entre contratados e 21 entre empregados. Outras quatro vieram de dados indiretos da China que não permitiam distinguir os dois grupos.

A worldsteel também destaca que as fatalidades vêm se concentrando em atividades de alto risco e não rotineiras, citando trabalho em altura, manutenção, movimentação de veículos, operação com empilhadeiras e trabalhos relacionados a gases.

Esses números não permitem afirmar que todo trabalhador terceirizado possui determinado risco adicional. Eles mostram, porém, a necessidade de atenção à integração de contratadas, planejamento de paradas, bloqueio de energias, permissões de trabalho, coordenação entre equipes, atividades simultâneas e mudanças temporárias das condições normais da planta.

Alguns riscos à saúde não aparecem no acidente do dia

Uma gestão baseada apenas nos eventos agudos pode deixar em segundo plano exposições capazes de produzir efeitos ao longo do tempo.

Calor ocupacional e risco térmico de acidente não são a mesma coisa

A exposição ocupacional ao calor está relacionada à carga térmica recebida pelo organismo durante o trabalho.

Para fins de prevenção, o Anexo III da NR 9 estabelece requisitos para avaliação da exposição ocupacional ao calor e para as medidas de prevenção, quando esse agente é identificado no PGR.

Já o Anexo 3 da NR 15 trata dos limites de tolerância utilizados para a caracterização de insalubridade por exposição ao calor. Tanto o Anexo III da NR 9 quanto o Anexo 3 da NR 15 adotam a metodologia e os procedimentos da NHO 06 da Fundacentro para a avaliação quantitativa da exposição ao calor, mas possuem finalidades normativas distintas.

Um risco térmico de acidente, por sua vez, envolve situações como contato com materiais ou superfícies aquecidas, chama, calor radiante intenso, respingos e metal líquido. Os dois tipos de situação podem coexistir, mas não devem ser tratados como se fossem a mesma exposição.

Para aprofundar a avaliação da exposição ocupacional ao calor, consulte NR 15 Anexo 3 e os limites de tolerância ao calor.

Ruído, gases e outros agentes

O ruído pode estar presente em diferentes etapas do processo e produzir efeitos cumulativos. Gases, vapores, fumos e particulados, por sua vez, precisam ser identificados de acordo com a área, o material e a atividade realizada.

Na coqueria, a análise pode envolver benzeno e HPAs. Em operações relacionadas ao alto-forno, o monóxido de carbono exige atenção específica. Em intervenções com materiais refratários, a composição do material e a geração de poeira precisam ser conhecidas antes de se definir quais agentes estão presentes.

O princípio é identificar tecnicamente a exposição real e aplicar os critérios correspondentes de avaliação e controle.

Radiação infravermelha também deve entrar na avaliação

Materiais incandescentes e processos industriais com aço aquecido podem emitir radiação óptica, inclusive na faixa do infravermelho.

O Institut National de Recherche et de Sécurité (INRS) cita a fusão do aço entre os processos industriais capazes de gerar radiações ópticas e informa que exposições prolongadas e intensas podem provocar efeitos nos olhos. Entre os possíveis efeitos crônicos está a opacificação do cristalino, associada à catarata.

Quando esse risco estiver presente, a proteção de olhos e face precisa ser selecionada de acordo com a exposição identificada, e não apenas pela necessidade de barreira mecânica.

Veja também protetor facial para alta temperatura com visor ouro ou verde.

Como priorizar os riscos sem transformar o PGR em uma lista?

Mapear perigos é apenas parte do trabalho. A priorização precisa considerar a gravidade potencial, a exposição e a eficácia das medidas existentes.

A NR 1 determina, no item 1.4.1, alínea “g”, que as medidas de prevenção observem a seguinte ordem de prioridade: eliminação dos fatores de risco, medidas de proteção coletiva, medidas administrativas ou de organização do trabalho e, por último, medidas de proteção individual.

Na siderurgia, quatro perguntas ajudam a transformar o inventário em decisão:

  1. O cenário pode produzir uma consequência grave ou fatal? A baixa frequência não elimina a necessidade de atenção a eventos de elevada severidade potencial.
  2. As barreiras existentes continuam eficazes? Controles precisam ser verificados, mantidos e acompanhados, e não apenas constar em procedimentos.
  3. A atividade foge da rotina normal? Paradas, manutenção, trabalhos temporários e intervenções de contratadas podem modificar as condições de exposição.
  4. Existe uma exposição capaz de produzir dano cumulativo? Calor, ruído e determinados agentes precisam permanecer na análise mesmo sem um acidente imediato.

Para aprofundar a estrutura do gerenciamento, consulte GRO: Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.

Onde os EPIs entram na proteção dos riscos siderúrgicos?

O EPI pode ser decisivo em determinadas atividades siderúrgicas, mas sua função precisa ser compreendida dentro da hierarquia de prevenção.

A proteção individual não controla uma liberação de gás, não impede a trajetória de um veículo e não substitui sistemas de proteção de máquinas, integridade de processo, segregação ou outras medidas aplicáveis.

Em operações com altas temperaturas, porém, EPIs adequadamente selecionados podem integrar a proteção contra riscos residuais relacionados a calor radiante, contato com materiais aquecidos, respingos e outras exposições térmicas identificadas na atividade.

A NR 6 determina que a seleção considere a atividade exercida, as medidas de prevenção adotadas, a eficácia necessária para o controle da exposição, a adequação ao trabalhador e a compatibilidade quando vários EPIs precisam ser utilizados simultaneamente.

Na proteção térmica, isso significa avaliar o mecanismo de exposição, a região corporal que precisa ser protegida, o CA, a construção do equipamento e seu desempenho documentado.

Veja também EPIs para calor radiante, EPIs de aramida e como escolher EPI para alta temperatura.

Perguntas frequentes sobre riscos na siderurgia

Toda siderúrgica apresenta os mesmos riscos e possui as mesmas áreas?

Não. O perfil de risco depende da rota produtiva, dos equipamentos, do layout e das atividades executadas. Uma usina integrada pode envolver alto-forno e convertedor, enquanto uma configuração semi-integrada pode utilizar forno elétrico a arco com sucata e outras cargas metálicas. Por isso, o mapa de riscos deve refletir a planta e o trabalho realmente executado.

Qual é a diferença entre exposição ocupacional ao calor e risco térmico de acidente?

A exposição ocupacional ao calor está relacionada à carga térmica recebida pelo organismo. Para prevenção, sua avaliação e controle são tratados pelo Anexo III da NR 9; o Anexo 3 da NR 15 trata da caracterização de insalubridade por exposição ao calor. Já o risco térmico de acidente envolve eventos como contato com materiais aquecidos, chama, calor radiante intenso, respingos ou metal líquido. As duas situações podem coexistir, mas exigem avaliações e controles distintos.

Riscos na siderurgia precisam ser analisados onde realmente acontecem

Uma lista genérica de riscos pode iniciar uma análise, mas não é suficiente para orientar a gestão de uma operação siderúrgica.

Os perigos mudam conforme a rota produtiva, a área, a tarefa e as condições em que o trabalho é executado. Alguns eventos aparecem com frequência e geram muitos afastamentos. Outros podem ser menos frequentes e, quando as barreiras falham, apresentar potencial muito maior para consequências graves ou fatais.

Também existem riscos de processo e exposições à saúde que não devem perder prioridade simplesmente porque não produziram um acidente visível.

Por isso, uma gestão consistente precisa combinar localização do perigo, gravidade potencial, características da exposição e eficácia dos controles existentes.

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Um abraço e até o próximo conteúdo.